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Cultura • set 29, 2026

A Gen Alpha já influencia antes de comprar

Enquanto muita marca ainda tenta entender a Gen Z, a próxima geração já está mudando a forma como consumimos. A Gen Alpha ainda não tem o mesmo poder de compra dos adultos, mas já participa de decisões, influencia escolhas familiares e começa a construir suas próprias referências de marcas, produtos e experiências.

Por isso, talvez seja mais interessante olhar para o que ela já está fazendo do que tentar prever como será o consumidor da Gen Alpha daqui a dez ou quinze anos.

Um estudo da Teneo publicado este ano estima que crianças da Gen Alpha já influenciam mais de US$ 250 bilhões em gastos das famílias americanas. E não estamos falando apenas de brinquedos ou produtos infantis, a influência aparece em categorias como alimentação, moda, lazer e viagens.

A criança pode não ser quem paga, mas já pode ter bastante a dizer sobre o que entra no carrinho, onde a família vai comer no fim de semana ou até para onde ela vai viajar.

Foto: Pexels.

Durante muito tempo, pensar em consumo infantil significava pensar em produtos feitos para crianças. Com a Gen Alpha, a influência vai além disso: destino, restaurante, atração e atividades podem entrar na conversa a partir de uma preferência da criança.

Segundo o relatório de tendências da Hilton para 2025, 70% dos adultos que viajam com filhos disseram considerar as necessidades e interesses das crianças na escolha do destino. E 63% afirmaram que sempre ou frequentemente deixam os filhos escolherem onde comer durante a viagem.

No Brasil, essa geração também está crescendo em um ambiente cada vez mais conectado. Dados do Cetic.br mostram que, entre 2015 e 2024, o número de crianças de 6 a 8 anos que usavam a internet passou de 41% para 82%. Entre 3 e 5 anos, passou de 26% para 71%.

De onde vem o desejo?

Para entender a Gen Alpha, talvez seja menos interessante perguntar o que ela quer comprar e mais interessante observar onde ela descobre aquilo que quer.

Um produto pode aparecer em um vídeo, dentro de um jogo, ser comentado por um creator e depois surgir em uma conversa com amigos. Esses momentos não acontecem necessariamente em sequência, a publicidade também passa a dividir espaço com entretenimento, comunidade e conteúdo.

Os games ajudam a entender essa mudança, além de uma forma de passar o tempo, também são espaços de interação, descoberta e construção de identidade. Uma pesquisa da Gameloft for Brands aponta que 93% das crianças entrevistadas jogam regularmente em dispositivos móveis.

Uma marca pode aparecer como produto, personagem, experiência ou parte daquele universo. A publicidade deixa de ser necessariamente algo que interrompe o conteúdo e passa a fazer parte dele.

Foto: Pexels.

A edição de 2025 do estudo Children’s Media Lives, do Ofcom, acompanhou crianças e adolescentes no Reino Unido para entender como eles consomem mídia e se relacionam com creators. O estudo mostra como publicidade e conteúdo produzido por creators já fazem parte de um mesmo ecossistema de mídia para esse público.

E isso mostra que a influência não precisa mais vir de uma celebridade com milhões de seguidores. Um creator pode ser relevante porque entende de determinado jogo, esporte, destino, estilo ou assunto e uma comunidade pequena pode ter mais peso sobre uma decisão específica do que uma audiência enorme. Para uma geração que cresce com uma quantidade gigantesca de conteúdo disponível, referência também pode vir de lugares muito mais fragmentados.

Uma geração digital também quer sair da tela

O digital é, sem dúvida, uma parte importante dessa geração, mas ele convive com experiências presenciais, esportes, cultura, viagens, amigos e família. No Brasil, a TIC Kids Online Brasil 2025 mostra que 71% dos usuários de internet de 9 a 17 anos usaram redes sociais, enquanto 72% usaram serviços de mensagens instantâneas.

A tela pode ser o lugar onde uma experiência é descoberta, mas não necessariamente onde ela termina, um vídeo pode despertar vontade de conhecer uma cidade, um post pode levar a um restaurante e uma recomendação pode virar uma viagem.

O digital começa a funcionar como uma camada sobre o mundo físico e o turismo já sente essa influência: Uma pesquisa da Expedia Group sobre viagens familiares na América Latina e na América do Norte mostrou que quase quatro em cada dez entrevistados diziam que a Gen Alpha influenciava as decisões de viagem da família. Na América Latina, 75% dos pais e avós entrevistados afirmaram que as crianças mostravam a eles conteúdos online relacionados a viagens. O Brasil estava entre os mercados pesquisados.

Foto: Pexels.

A pesquisa da Hilton aponta para algo parecido. Além dos 70% que consideram os interesses dos filhos ao escolher um destino, 56% dos entrevistados disseram considerar clubes infantis e programação para crianças na escolha do hotel.

Isso muda também a maneira de pensar hospitalidade. O adulto continua sendo quem faz a reserva, mas a criança pode participar da definição do que aquela viagem precisa ter.

Não precisamos esperar que ela chegue à idade adulta para entender que existe uma mudança acontecendo. Ela já está descobrindo produtos, compartilhando referências, influenciando escolhas e formando suas próprias expectativas sobre marcas.

E enquanto essa geração cresce, novas ferramentas também entram nessa rotina. A TIC Kids Online Brasil passou a investigar o uso de inteligência artificial generativa por crianças e adolescentes, acompanhando uma tecnologia que pode mudar ainda mais a maneira como essa geração pesquisa, cria e encontra informação.

A Gen Alpha está aprendendo a escolher em um ambiente de creators, comunidades, games, algoritmos e experiências híbridas muito antes de ter independência financeira.

Enquanto muitas marcas ainda estão tentando entender a geração anterior, a próxima já está mostrando algumas das perguntas que elas terão de responder.

Talvez a Gen Alpha ainda não esteja tão perto de ter o próprio cartão de crédito, mas já estão escolhendo o que quer ver, onde quer estar e o que quer experimentar. E, em muitos casos, está levando essas escolhas para a mesa de quem paga por elas.


Por Verônica Lira – Marketing na SMI.